O dia em que me descobri cega no Centro - Nathalia Ziemkiewicz

De todas as alegrias proporcionadas pela profissão que escolhi, a melhor delas é poder visitar universos que me são desconhecidos. E perguntar e me intrometer – acho que escolhi o jornalismo só para tê-lo como desculpa, caso achassem a minha curiosidade inconveniente. Melhor ainda quando consigo vestir a pele do outro. Por alguns dias, horas, instantes. Fiz isso na semana passada, durante a primeira aula prática de uma turma muito especial da Fundação Dorina Nowill, instituição filantrópica para deficientes visuais.

Desde agosto, os dez alunos do curso de Avaliação Olfativa, cegos ou com baixa visão (menos de 30% da capacidade de enxergar), estão sendo preparados para o mercado de trabalho. Eles poderão atuar como especialistas em perfumaria, área em que o Brasil é líder mundial no quesito consumo. Ao término de um ano e meio, serão capazes de identificar os ingredientes que compõe uma fragrância e dizer se ela é agradável ou não. Assim como um enólogo é capaz de reconhecer sabores em um determinado vinho e criticá-lo.

Na quinta-feira passada, a turma foi levada pela professora Renata Ashcar para o mercado de flores do Largo do Arouche e o Mercado Municipal de São Paulo, ambos no Centro. Eu estava lá, doida para viver aquela experiência também. Me aproximei de uma japonesinha tímida, de 17 anos, sorridente depois de descobrir o perfume de uma angélica e ouvir da professora que ele sempre foi ligado à sensualidade. “Se eu botar uma venda nos olhos, você me guia?”, eu disse, já tendo reparado a habilidade dela com a bengala. Marina pareceu desconcertada com a minha vontade de trocar aqueles coloridos todos que ela não alcança por algumas horas monocromáticas – há cinco anos, um tumor no cerebelo lhe tirou a visão. Mas ela me estendeu o braço direito e, em seguida, tudo ficou escuro para mim.

Escuro e quase sem odor, graças a uma sinusite que entupiu minhas narinas assim que acordei naquela manhã. Lembro que logo nos estenderam um flor de cabo longo e, por mais que me esforçasse, precisei da dica de Marina para descobrir que se tratava de um cravo. “Combina com canela”, ria de mim. Desde que ficou cega, ela contou que o pai tenta apurar seu olfato, brincando de adivinhações enquanto cozinha: “coentro ou salsinha, minha filha?”. Alguém se aproximou com um vaso de hortelã e ela falou em chiclete. Depois, captei o cheiro de manjericão e me veio à cabeça um pedaço de pizza marguerita. Nos levaram a um balde com lírios e pensei em cemitério. Curioso como, sem a visão, tudo ganha outras dimensões e mais significados.

Foi difícil sair dali. Andar sem ajuda dos olhos é pisar temendo aquela pancada do dedo mindinho numa quina ou um buraco que nos leve ao chão num passo besta. Os sons mais banais são assustadores – o helicóptero que sobrevoava a região, a sirene de ambulância, alguém discutindo no telefone, a buzina que parecia ter passado “tirando uma fina” de nós. Era como se o barulho do mundo tivesse se hospedado nos meus ouvidos, aflorados como nunca. Marina tateava minha insegurança com uma delicadeza ímpar, apontando um degrau à frente e me desviando de obstáculos.

Bruna, colega de Marina no curso, fez piada: “Para-choque de cego é a testa. Todos nós odiamos orelhão – desviamos do poste que o sustenta, mas sempre batemos a cabeça na cabine!”. Todos se divertiram, mas fiquei sem graça. Só depois percebi o quanto o humor deles sobre os próprios limites consegue iluminar e trazer leveza aos dramas cotidianos. No estacionamento do Mercadão, andando por entre os carros, dei inúmeras barrigadas em espelhos retrovisores. Lá dentro, bem na entrada, ventania de fritura e pastel de bacalhau.

Mesmo sem ver, sabia que tínhamos nos tornado o centro das atenções. Sentia os olhares alheios pesando sobre os meus ombros. Ouvia pessoas comentarem, com dó, sobre a nossa condição. Tive vontade de dizer que éramos todos cegos, não surdos. Marina minimizava a minha revolta: “Relaxa, estou acostumada”. Ela, que estuda o terceiro ano de um tradicional colégio paulistano, que deve prestar vestibular para jornalismo e psicologia, que viaja para curtir aventuras como rafting e tirolesa.

Na segunda fase da aula, a professora nos posicionou ao lado de uma barraca. Tentei me concentrar, pedir ao cérebro que definisse os aromas flutuantes no ar. Era uma salada de frutas, mas o frescor das mangas se sobressaía. Uma voz grossa e simpática, nos ofereceu uma fatia de tangerina sem caroço. Mordi os gomos e decretei: “Marina, é a melhor tangerina que provei em toda a minha vida”. E ela lembrou como meu paladar devia estar sensível com a experiência. Sem saber quem estava ao redor, me dirigi ao cinegrafista: “Gabo, meu dente está sujo?”, mostrando os dentes. “Me passa um guardanapo?”, insisti. “Gabo? Tem alguém aqui?”, fiquei no vácuo.

Na degustação às cegas, seguiram-se abacaxi, pêra-nashi, pitaia, morango, ameixa… A professora de avaliação olfativa comentou que o pêssego cheirado e saboreado há pouco é muito usado pela Victoria Secrets na composição de seus cosméticos. E o cupuaçu, aquele troço azedo e gosmento que havíamos experimentado, em shampoos de marcas como Natura. Era a primeira aula prática, mas a classe têm dois encontros por semana, com quatro horas de duração cada. Depois de um ano de curso, os alunos terão seis meses de estágio na indústria Tânia Bulhões Perfumes, empresa que patrocina o curso. Renata encerrou o dia em uma barraca de especiarias e temperos, apresentando cominho, louro, pimenta etc. Os comerciantes baixavam os toldos, o expediente havia acabado.

Só então, quase três horas desde o momento em que coloquei a venda, me permiti tirá-la. Os olhos ardiam com a luz de fim de tarde que atravessava as vidraças do Mercadão. A cabeça doía. Uns curiosos espiavam a minha reação. Secretamente, tudo que eu desejava era poder tirar também a venda dos olhos de Marina. “Como você acha que eu sou?”, eu quis saber. Ela esticou os lábios e, com sua voz doce e baixinha, arriscou gentilmente: “Bonita”. Bonita é a superação de Marina e seus colegas. A iniciativa de capacitá-los para o mercado de trabalho. E isso eu espero que qualquer um, principalmente eles próprios, consigam enxergar.

Por: Nathalia Ziemkiewicz

Fonte: Época São Paulo – Blog #CentroAvante »

http://colunas.epocasp.globo.com/centroavante/2011/10/11/o-dia-em-que-me...

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